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Se você é ornitólogo profissional ou amador, ou um simples amante da natureza em especial da avifauna, este é o seu Blog. De agora em diante serão postadas novidades, notícias e informações interessantes obtidas através das pesquisas e atividades realizadas pela ONG MAE - Meio Ambiente Equilibrado, sobre a avifauna brasileira.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Técnica de "Playback" na observação de aves, até onde podemos ir?

     As aves sempre fascinaram o homem, seja pelas suas variadas combinações de cores e contrastes, ou pela notória capacidade de voar. Esta admiração resultou num cenário rico em pesquisas e amantes ornitológicos (exceto aqueles que se dizem amantes das aves mas "apreciam-nas" em gaiolas), que contribuem para a preservação destes formidáveis seres alados. 
       Pesquisadores e observadores andam praticamente juntos atualmente, com um grupo usufruindo dos resultados do trabalho do outro. É fácil observar isto, por exemplo, quando se vê dezenas de pesquisadores "migrando" para um determinado local, onde por acaso, um observador informalmente registrou uma determinada espécie de grande importância. O contrário também ocorre, quando vemos dezenas de observadores que "migram" para um determinado local onde foram descobertas centenas de espécies durante alguma pesquisa da avifauna. Esta relação pesquisador-observador é sem dúvidas muito importante e proveitosa para ambos lados.
      Mas todos sabem, ou pelo menos imaginam, que registrar aves em seu habitat natural, é muito mais complicado do que parece. As vezes você abre um livro de aves de um determinado local, e nele há fotos e mais fotos de várias espécies comuns e raras, e você pode até pensar "poxa se eu for neste lugar então eu vou ver tudo isto?", mas obviamente não é assim que funciona. Os registros com certeza são frutos de anos de trabalho se especializando e correndo atrás dos bichos.
     E para facilitar os registros, há várias décadas vêm sendo criadas e aperfeiçoadas técnicas de Bioacústica, que é um ramo da Biologia que estuda as vocalizações dos animais, sendo aplicada para estudos com Aves, Anuros, Mamíferos e Insetos. A bioacústica visa entender os tipos de vocalizações de cada espécie, a função de cada tipo de vocalização, e consequentemente, aprimorar os conhecimentos etológicos (comportamento animal). É desta ciência que surgiram as técnicas de gravação das vocalizações e consequentemente, o playback.
     Um dos pioneiros da Bioacústica é o Engenheiro de formação Johan Dalgas Frisch, que desbravou o Brasil atrás de novos registros sonoros de nossos amigos penosos com seu gravador de rolo e microfones "caseiros". Foi também pioneiro ao lançar discos de cantos de aves, em especial os discos com clássicos da música mundial permeados de cantos de aves brasileiras (é bem interessante ouvir "Tico-tico no fubá" somada aos cantos de várias aves começando pelo próprio Tico-tico).
Johan Dalgas Frisch. Fonte: Aves Brasileiras Minha Paixão, Frisch (2005)
    Outro nome de respeito na Bioacústica, é Jacques Vielliard(1944-2010†), um pesquisador Francês que veio ao Brasil em 1976, e foi o responsável pela criação do Laboratório de Bioacústica da UNICAMP, um dos mais completos do Brasil.

Jacques Vielliard
     Cada um com sua abordagem, um mais passional, e o outro mais técnico, os dois com certeza são os principais tutores dos ornitólogos de hoje neste fascinante e complexo ramo da bioacústica das aves ("ornitoacústica" talvez?... kkkkk). Se você é um Ornitólogo técnico, utiliza a bioacústica em seus trabalhos, e nunca ouviu falar destes dois, e por isso acha que não eles são seus tutores, pergunte ao seu professor ou orientador, e veja com quem ele aprendeu. hehehehe.
      O que talvez nem Dalgas tampouco Vielliard imaginariam é que a bioacústica fosse se tornar algo tão acessível como está hoje. Atualmente é possível encontrar gravadores de ótima qualidade até mesmo em supermercados, coisa que há 50 anos atrás era inimaginável.  Há cada vez mais pessoas - pesquisadores ou não - com bons equipamentos de gravação fazendo registros sonoros de aves pelo Brasil a fora. Com isto, uma verdadeira chuva de gravações tem sido submetidas diariamente aos sites especializados e de livre acesso sobre aves, como o pioneiro "Xeno-canto" e a nova febre nacional "Wikiaves". 
     Hoje em dia Literalmente qualquer pessoa que tenha um mp3 player ou um celular com capacidades musicais pode forrar seus aparelhos com cantos de aves "baixados" da internet, e se aventurar por aí reproduzindo os cantos e fazendo o que chamamos de playback.
     Isto é ótimo não é!?
     Digamos que Sim, mas Não.
     SIM, pois com mais pessoas se interessando pelos nossos amigos alados, mais pessoas são sensibilizadas pela sua beleza e diversidade, e consequentemente atentam para a importância da preservação ambiental.
     E NÃO, porque muita gente não sabe lidar com este "poder" adquirido ao carregar seu aparelho lotado de cantos de aves. Vou explicar melhor.
     O Playback começou a ser utilizado na ornitologia para facilitar o trabalho e os registros das espécies de aves, em especial durante pesquisas e estudos. Muitas vezes esta técnica é utilizada apenas para atestar a presença de determinada espécie em determinado local para daí então. se a espécie permitir, tentar uma aproximação para foto.
     Mas o que tem acontecido ultimamente, é que com incrível crescimento no número de pessoas interessadas em praticar a observação de aves no Brasil há, obviamente, mais visitação humana nos locais tidos como "ideais" para a prática. São cada vez mais pessoas adentrando em matas e unidades de conservação, e que de posse de seus equipamentos para playback saem tocando as mais variadas aves afim de fazer bons registros das espécies. Isto por si só, já pode representar um infortúnio para as aves, que antes conviviam esporadicamente com pesquisadores, e hoje recebem quase diariamente pessoas comuns e Guias munidos de "playback".
     E conforme o observador de aves aumenta seu número de espécies registradas, obviamente as espécies mais crípticas e aríscas vão se tornando prioridade. E aí mora um perigo maior ainda.
     Se a espécie é naturalmente arisca, é porque ela NATURALMENTE (volto a dizer) não gosta da presença de outros animais, incluindo esse tal de Homo sapiens. E de repente, esta espécie começa a ser chamada com mais frequência, e quando é chamada, o misterioso "parceiro" simplesmente canta sem parar e quanto mais a ave procura, menos pista encontra de tal parceiro.
     Recapitulando... uma espécie arisca, que não costuma cantar muito, que se esconde durante todo o dia, de repente se depara com um misterioso ser de sua própria espécie (playback) que canta sem parar. Agora imaginem esta situação se tornando cada vez mais constante, com esta nova "superpopulação" de passarinheiros por aí.
    Eu (Renan Oliveira) sou Biólogo e Guia de Observação de Aves, isso não é mistério para ninguém, inclusive ofereço junto à ONG MAE a atividade de birdwatching por este blog. Com isto tenho tido bastante contato com clientes, amigos passarinheiros, e com outros Guias. Uma das reclamações mais comuns entre os guias é "Guiei uma pessoa que ficava pedindo pra eu fazer playback até a ave parar em um determinado local pois lá era onde a luz estava melhor para a foto". A reclamação tem total fundamento, em especial para aqueles guias com um pouco mais de instrução sobre a biologia das aves.
      O maior problema, é que não há comprovação científica significativa de que playback faz "bem ou mal" para as aves. Neste caso, nos resta compartilhar experiências.
      Há alguns anos, eu (Renan Oliveira) estava em uma unidade de conservação em Londrina, ainda no início de minhas expedições ornitológicas sérias, resolvi tentar fotografar um dos passarinhos mais comuns e também um dos mais procurados por aqui, o Estalador (Corythopis delalandi). Obviamente, para facilitar o processo, resolvi usar meu acervo sonoro e soltar o bom e velho playback.
        Comecei a chamar a ave, que prontamente começou a responder... Conforme eu seguia chamando a ave, ela aproximava mais e mais... Nesse meio tempo haviam passados aproximadamente 20 minutos de "diálogo" entre minha caixa de som e a ave. Obviamente meu playback não era constante ao longo destes 20 minutos, e eu só tocava depois que a ave respondia.
        De repente comecei a escutar a ave sempre de um mesmo ponto, e adentrei um pouco na mata para tentar a foto. Para minha surpresa, ela estava no chão, cantando próximo ao tronco de uma pequena árvore,  de onde ele tentava pular para um galho que estava a mais ou menos 30 cm de altura. Uma altura baixíssima para uma ave, mas que o pobre Estalador não conseguia subir.
         Logo notei que eu havia estressado tanto o animal que ele havia praticamente perdido as forças e mau conseguia sair do chão. Fiquei chocado, e o remorso tomou conta no mesmo minuto. A partir daquele momento, me afastei do bicho e fiquei acompanhando em silêncio para ver se ele se recuperava e seguia sua vida. Por minha sorte (foi sorte mesmo) depois de alguns minutos ele se recuperou e voou pra dentro da mata.
        Resumo da história, a partir daquele dia, nunca mais "azucrinei" uma ave para conseguir o melhor registro, e tenho orientado a todos que tenho contato, profissionais ou amadores, para tomarem o mesmo cuidado. Do mesmo jeito que certas espécies são muito tolerantes, outras podem sofrer bastante com o uso excessivo de playback.
       E ainda assim, mesmo aves mais comuns - como é o caso do Estalador em Londrina - que teoricamente seriam mais tolerantes ao contato humano, podem sofrer com o uso excessivo da técnica.
           Uma dica?
           Aprenda a respeitar a vontade das aves, e só faça o registro que elas permitirem. Já fiz muitas fotos e gravações sem playback, que ficaram ótimas. Muito mais do que ter o canto da ave e chama-la com seu equipamento até uma "super pose" para observar ou fotografar o animal, a observação de aves é uma arte de como você deve se comportar no ambiente delas, sempre com o mínimo de barulho, e o máximo de respeito.

11 comentários:

  1. Ótimo artigo, devemos respeitar e conhecer os hábitos dos animais antes de sairmos para qualquer observação.

    Nágila

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  2. Concordo plenamente. Parabéns pela abordagem!

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  3. Obrigado pessoal.
    Seria bom se todos observadores passassem a respeitar os hábitos das aves, e que a gana pelo registro não fosse maior do que o respeito pelo animal.

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  4. Excelente artigo, norteador para o crescente número de observadores de aves no Brasil. De fato, o prazer de observar/registrar nossas aves deve ser responsável, limitado por preocupações reais com a preservação do modo de vida e comportamentos naturais de cada espécie.
    Parabéns Renan Oliveira.

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    1. Obrigado Wagner pelo acesso e pelo comentário.
      Um abraço!

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  5. letras grandes para adisinar fotos

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  6. Excelente artigo!!!
    Eu sou fascinado pelo canto das aves, mas quase não uso o playback, procuro evitar, pois em muitas situações não se observa o bicho em seu comportamento natural e sim, ele estressado procurando um potencial invasor de seu território. E assim pode se perder oportunidades diversas, como hábitos alimentares (um dos meus focos) ou mesmo a reprodução.
    Eu acredito que o playback tem seu valor para o turismo de observação de aves, mas deve se limitar o uso para determinadas áreas e não em qualquer lugar. Atrair o bicho para "fora", também tira o contexto de seu habitat. Pode render belíssimas fotos, mas entre qualidade de foto e um momento especial como a reprodução, um display, ou a alimentação vale mais um registro razoável, mesmo em más condições de luz.
    Amo fotografia, mas amo mais a natureza como ela se apresenta, ela ensina muito, basta observar com atenção e sem atrapalhar a professora!

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  7. Parabéns, Renan Oliveira! Belo artigo!
    Você abordou pontos relevantes!!

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  8. Muito obrigado por transmitir a né esse conhecimento!

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